A arte pertence ao inconsciente; a técnica, ao consciente.
Só quando ambas trabalham juntas a obra se realiza.

Arnold Schoenberg

O Ethos da Música

A criação musical de qualidade — sustentada por escrita consciente, forma, técnica e inspiração aliadas a profundo conhecimento musical — tornou-se cada vez mais rara no cenário contemporâneo. Em diferentes esferas, tanto na música popular quanto na erudita, observa-se um enfraquecimento do rigor artístico, ainda que existam compositores relevantes produzindo obras consistentes. O problema não é a ausência total de qualidade, mas sua substituição progressiva por produções orientadas apenas pelo impacto imediato e pelo entretenimento superficial.

Diante desse contexto, compor passa a ser uma escolha estética e ética. Não se trata de reagir a tendências passageiras, mas de assumir uma posição clara diante da linguagem musical, da forma e do sentido da obra. Nem toda organização de sons constitui arte: o gosto é subjetivo, mas a qualidade artística independe da preferência pessoal. É possível reconhecer consistência, profundidade e intenção estética mesmo em uma música que não nos agrada.

A música, quando verdadeiramente artística, conduz o ouvinte a uma experiência que ultrapassa o racional. Ela é capaz de alcançar dimensões que a linguagem não explica, provocar silêncio interior, arrepio físico e percepção expandida. É nesse território — onde forma, expressão e sentido se encontram — que a composição musical encontra sua razão mais profunda de existir.

Tradição e Música Contemporânea

A evolução da música se constrói a partir da preservação e do aprofundamento da tradição. A verdadeira inovação não nasce da simples quebra de regras, mas do conhecimento pleno da linguagem que se deseja transformar. Para que a ruptura seja significativa e esteticamente válida, é necessário antes compreender, assimilar e ampliar o legado deixado por grandes compositores. Só então a modernização da música se torna coerente, bela e capaz de produzir continuidade, e não mera desconstrução.

A ruptura vazia, apoiada apenas no choque ou na negação dos elementos fundamentais da música, não constrói linguagem nem amplia possibilidades expressivas. A música contemporânea não precisa ser árida ou desprovida de forma para ser atual. Sua força reside na capacidade de dialogar com o presente sem abdicar de princípios como direção, estrutura, tensão, repouso e sentido expressivo. O objetivo do compositor não deve ser surpreender de maneira gratuita, mas conduzir o ouvinte a uma experiência musical profunda e significativa.

A Visão Aplicada

Essa compreensão orienta também a escrita autoral. Na obra Stabat Mater (vídeo abaixo), a linguagem dialoga com diferentes períodos da música de concerto, sem se filiar diretamente a nenhum deles. A estética não é antiga, mas tampouco rompe de forma radical com a tradição. Técnicas históricas são utilizadas como base, enquanto soluções formais contemporâneas permitem a construção de uma identidade própria. O resultado busca inovação com responsabilidade estética, preservando elementos fundamentais da linguagem musical e evitando a negação indiscriminada da tradição.

A música não precisa repetir o passado para ser válida, mas também não deve destruir seus fundamentos para parecer nova. A criação contemporânea encontra sua força quando consegue avançar com consciência, identidade e respeito à própria história da linguagem musical.