a música sacra deve elevar o coração humano acima de si mesmo.
Wolfgang Amadeus Mozart
Como educador, o trabalho pedagógico concentra-se prioritariamente na formação de encarregados musicais e regentes que atuam em instituições religiosas. Essa escolha parte de um princípio filosófico e espiritual: a música, no contexto litúrgico, não é elemento acessório, mas parte integrante do rito. Sua função é dar clareza, profundidade e coerência à experiência religiosa. Quando a música perde qualidade, o próprio sentido de sua presença no rito se enfraquece.
Ao longo da história, as artes sempre colaboraram para a construção do ambiente sagrado. A arquitetura de grandes catedrais, com seus espaços amplos e ornamentação cuidadosa, foi pensada para expressar a grandeza do divino e a dimensão humana diante dele. Os vitrais, por sua vez, filtram a luz e criam atmosferas que conduzem o fiel a um estado interior condizente com o rito. A música exerce função semelhante: ela ambienta, prepara e eleva o espírito da congregação, contribuindo para que o rito aconteça com clareza e profundidade.
A ausência de formação adequada na condução musical das igrejas, porém, tem levado à perda progressiva de qualidade artística. Em muitos casos, encarregados assumem funções de regência sem preparo técnico suficiente, o que resulta em empobrecimento musical e, consequentemente, em prejuízo à experiência espiritual dos participantes. A música só cumpre sua função quando possui qualidade; caso contrário, deixa de servir ao rito e passa a atrair atenção indevida devido às falhas, deslocando o foco do que realmente importa. A música não deve ser o centro da celebração, mas um instrumento de elevação — nunca uma formalidade cumprida de maneira burocrática.
A orientação pedagógica nesses contextos é voltada aos fundamentos teóricos e práticos necessários para que o encarregado musical exerça sua função com clareza e responsabilidade. O trabalho abrange técnica de ensaio, técnica vocal aplicada ao coro, gesto de regência com clareza e expressividade, compreensão da partitura, interpretação musical, fundamentos de harmonia, contraponto e percepção musical, sempre de forma direcionada à realidade do aluno. Trata-se de uma formação aplicada, pensada para otimizar o tempo disponível, permitindo que o aluno exerça sua função de maneira digna.
É importante reconhecer que o ensino musical também tem sido banalizado, com promessas ilusórias de aprendizado rápido e superficial. A regência não se resume a marcar o tempo ou a gestos claros; essas são apenas partes de um conjunto muito mais amplo de competências. O caminho aqui não é curto, mas é real. A prática simultânea — estudar e continuar exercendo a função — permite que o aluno compreenda, na prática, os efeitos da técnica, tornando o aprendizado mais consistente e eficaz.
Por fim, é fundamental compreender a responsabilidade do regente diante do grupo que lidera. Cada ensaio envolve o tempo e o esforço de várias pessoas, e cabe ao maestro conduzir esse trabalho de forma eficiente, evitando desperdício humano e buscando o melhor resultado musical possível. A música só alcança seu propósito quando é feita com qualidade; sem ela, perde sentido.